Um 36º Festival dedicado ao real e ao intimismo
Este artigo foi escrito, em outubro de 2008, por Didier Pasamonik de l’Agence BD (agência francesa on-line de informação sobre quadrinhos) que, gentilmente, permitiu-nos sua tradução. Didier insere a discussão na atual crise econômica mundial e destaca algumas questões que o mundo dos quadrinhos deverá levar em conta daqui em diante. É um debate dirigido, essencialmente, ao mercado francês, mas, sem dúvida, interessa a todos amantes dos quadrinhos no mundo. Foi por esta razão que decidimos publicá-lo. O texto original encontra-se neste link. Não traduzimos a última parte do texto, pois, ela refere-se à lista dos premiados no Festival de Angoulême. Além da discussão, o artigo apresenta a programação das principais atividades do Festival.
Como poderia ser diferente? As bolsas despencam, os bancos estão falidos, a recessão bate à nossa porta e as medidas tomadas pelos governos prometem dias difíceis. O Festival de Angoulême ainda que tente se apresentar como uma festa, todos, porém, se perguntam qual será o impacto da crise sobre a manifestação “angoumoisine” (de Angoulême).
Esta impressão de caos já é anunciada através do cartaz elaborado pela presidência bicéfala de Dupuy & Berberian: vemos um Angoulême em satélite, quase explodindo, enquanto que nossos autores escapam protegidos em seu disco voador. Nós estamos em outro lugar, longe da vulgaridade do mundo, a internet está desconectada. Franck Bondoux, o delegado geral do Festival retorna ao contexto do real, ou seja, a atualidade do mundo nestes tempos complicados e difíceis. O discurso de nosso taciturno delegado geral, gestor frio e adepto da flexibilidade política, para ser descodificado, quase necessita a intervenção de um especialista. Em seu discurso inaugural na conferência de imprensa, ele evoca a necessidade do Festival adaptar-se à economia real.
A mensagem não é para o público, mas para os patrocinadores cujo apoio financeiro, essencial para o festival, suscita preocupação. Alguns sinais começam a surgir.
- Anuncia-se uma baixa notável da freqüência nos festivais culturais franceses nestes últimos dias.
- Franck Bondoux lamenta publicamente o fim da subvenção do Ministério da Saúde, da Juventude, Esportes e da vida associativa e convoca diretamente a ministra Roselyne Bachelot a rever a decisão de sua administração. A tendência global da reforma do estado caminha no sentido de uma desregulamentação com as regiões onde, muitas delas, estão sem recursos. Por esta razão, grandes eventos culturais estão ameaçados nesta estação. Ainda que o prefeito de Angoulême e o Presidente da Região manifestem seus apoios através de suas presenças, a conjuntura política não é tranqüilizadora.
- Enfim, o apoio da Caisse d’Épargne (Caixa Econômica Federal), patrocinador tradicional, há 25 anos, do Festival, foi potencialmente questionado pela fusão anunciada com o Banco Popular. As cartas poderiam ser baixadas e este é um assunto preocupante para o delegado geral.
Economia real
Se a parceria com a SNCF (Sociedade Nacional de Caminhos de Ferro) permanece nos raios, o que acontecerá com a FNAC se o mercado do livro vier a sofrer um brusco sobressalto devido à redução brutal de sua atividade. E se os editores, prevendo o recuo das vendas, reorganizassem a dimensão de seus estandes e os convites aos autores para reduzir os seus custos? A resposta do delegado geral é sem ambigüidade: Nós saberemos adaptar nossas estruturas à economia real. Ou seja: caros patrocinadores, se vocês reduzirem suas participações, nós saberemos reduzir sua visibilidade e os eventos que estão relacionados; ou então, Senhores editores, se vocês reduzirem suas dimensões, nós renunciaremos à exposição que destaca seus personagens fetiches. Comportamento recíproco e até menor se os apoiadores institucionais estiverem ausentes.
O real contemporâneo
Em seus comentários, o diretor artístico do Festival, Benoît Mouchart, refere-se aos quadrinhos como uma janela aberta ao mundo ou todos, já somos amantes… para justificar uma programação centrada em um quadrinho intimista onde, naturalmente, a ressonância é universal porque o íntimo é sempre [...] uma tentativa de descodificar o mundo. E alinhar a lista dos convidados: Dan Clowes, Chris Ware, Adrian Tomine, Marjane Satrapi… que não estão evidentemente no Festival por acaso: Todos, em suas obras questionam o real e o presente [1].
Nós, achamos bom, mas será que os quadrinhos não são também a grande aventura no longínquo ou em outros planetas sustentado por um sopro épico, ou uma seqüência de humor sem grandes conseqüências ou mensagens mas apenas fazer-nos, simplesmente, rir? Flash Gordon, Michel Vaillant, Corto Maltese, Spirou, Les Passagers du vent, Largo Winch, Les Tuniques bleues, Le troisième testament, XIII, le Décalogue, RG ou Mickey não nos parecem ser exatamente quadrinhos intimistas. Não fariam mais parte das obras que Angoulême deseja promover? Que Benoît Mouchart nos perdoe, mas parece-me que aí há uma equação não resolvida.
Em conseqüência, o programa deste ano não realiza uma grande inovação. É como um copiar-colar do ano precedente:
- Exposições, especialmente em torno dos presidentes Dupuy & Berberian: sobre Lucien, o personagem de Franck Margerin, Shigeru Mizuki, o mangaka que ganhou o Prêmio de melhor álbum à Angoulême há dois anos, uma exposição de Winshluss, o criador de Monsieur Ferraille, Ceci n’est pas de la BD flamande, uma exposição da jovem criação belga flamenga e uma exposição sobre a África do Sul onde os autores constituem, segundo os organizadores, uma revelação, uma exposição sobre os quadrinhos independentes coreano Sai Comics e enfim, uma outra sobre a Fantasy (que nossos organizadores insistem em diferenciar de Heroic Fantasy) intitulada Le Théâtre des merveilles (O Teatro das maravilhas). A juventude terá direito a uma exposição Boule & Bill em frente à Prefeitura, na parte externa, parecida ao modo operacional da exposição Schtroumpfs de janeiro, sem esquecer a exposição Jovens Talentos da Caisse d’Épargne que revela, cada ano, novos autores.
- Quase 80 encontros estão previstos sobre os temas da autobiografia ou sobre o tratamento do íntimo onde encontraremos Daniel Clowes, Adrian Tomine, James Kochalka, Posy Simmonds, Melinda Gebbie, ou Chris Ware. Pode-se notar a presença dos autores sul-africanos Karlien de Villiers, Joe Daly, Joe Dog e Conrad Botes, a presença de Marjane Satrapi e, quase como contra-programação, a de Laurent Verron, atual desenhista de Boule & Bill.
- Além da exposição Mizuki já citada, a Manga Building será animado por obras de Hiroshi Hirata, um clássico dos quadrinhos japonês (A alma do Kyudo, pela Delcourt) que estará presente à Angoulême em vestes tradicionais, a presença de Murata Range, iniciador da antologia Robot pela Glénat que ministrará uma oficina, a desenhista francesa Raf-Chan, autora de Debazer pela Ankama e, enfim, Junko Kawakami (It’s your world pela Kana) que nos gratificará com uma performance pública.
- A projeção em avant-première do novo filme de Hayao Miyazaki, Ponyo sur une falaise (Ponyo do Penhasco) que será acompanhado por uma pequena exposição de croquis preparatórios do filme e, ainda, outras projeções.
- O pavilhão Jovens Talentos com seus espaços de formação, encontros e oficinas animadas pelo concurso revelação blog, o ateliê lúdico Wall Strip, a exposição Nage libre de Sébastien Crisostome, o concurso de tiras franco-canadenses e um concerto de jazz ilustrado a partir de uma mesa gráfica.
- Encontros juniors e ateliês no pólo jovem, sobretudo, com autores da seleção jovens.
- A Caisse d’Épargne será novamente apresentada com seu Prêmio Jovens Talentos e seu concurso de quadrinhos escolar que revelou tantos desenhistas, gangue de talentos que destaca seis álbuns publicados no ano e, enfim, os encontros, especialmente com Jean Solé (Superdupont) que preside, há muitos anos, o concurso de quadrinhos escolar e que foi apadrinhado em 2009 pelo autor Colonel Moutarde.
- Os espetáculos onde se encontram Os concertos de desenhos que continuam evoluindo na medida em que são pagantes, pois, a entrada do Festival não dá direito aos espetáculos. Como, aparentemente, as salas estão sempre lotadas, representa uma receita suplementar para o Festival. Estão anunciando Arthur H ilustrado por Christophe Blain, Rodolphe Burger ilustrado por Dupuy & Berberian, Arno ilustrado por Nix & Johan De Moor. Enfim, as Impro BD estão de volta com a partida França-Bélgica.
[1] Os quadrinhos, uma arte de seu século, uma arte em seu século. Entrevista com Benoît Mouchart. Dossiê de imprensa do 36o Festival, outubro de 2008.








