Guy Delisle - Parte I

Deivy Frajman acompanha o FIQ há muitos anos. Doutourou-se em Psicologia Clínica pela PUC de São Paulo com uma tese sobre a Política de Nietzsche e mudou-se para Israel. Atualmente, vive com sua família na cidade de Haifa. Ele aceitou o nosso convite e foi encontrar Guy Delisle no The American Colony Hotel em Jerusalém leste. A entrevista aconteceu no dia 05 de março no jardim interno do hotel. Ela foi dividida em duas (02) partes.
[Deivy Frajman] Muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Estamos muito contentes em recebê-lo na sexta edição do FIQ em Belo Horizonte.
Sabemos que após seus estudos, você foi trabalhar em um estúdio famoso de animação em Montréal. Aos 28 anos, você trabalhou em dois curtas-metragens de animação: Le Moine et le Poisson (O Monge e o Peixe) com Michael Dudok De Wit e Trois Petits Chats (Três Pequenos Gatos). Sabemos que - quadrinhos e animação - são dois universos distintos. Na animação, você deve adaptar o seu estilo a diferentes narrativas. Essa sua experiência com animação ajudou-te a ingressar no universo dos quadrinhos?
[Guy Delisle] Como você disse, são dois universos diferentes. O mercado de animação é muito grande. E as pessoas que trabalham com animação só trabalham com animação. Não existe uma ponte que liga os dois mundos e que faz com que as pessoas passem constantemente de um lado para outro. Eu ganhava a vida fazendo animação na França e eu conheci pessoas que faziam quadrinhos. Então chegou uma hora que eu também quis fazer. Comecei a querer ter um desenho meu, uma história minha. Eu fazia animação, mas era só uma pequena parte no meio de uma cadeia que eu gostava, mas eu queria fazer minha própria história.
Por dois anos eu fiz animação e no tempo disponível, comecei a fazer projetos para quadrinhos. Comecei a fazer mais quadrinhos e menos animação. Depois disso fiquei só com os quadrinhos.
[Deivy Frajman] Você diria então que se sente mais independente fazendo quadrinhos do que filmes de animação?
[Guy Delisle] Sim. Primeiro porque na animação você precisa de uma grande equipe, de um grande orçamento, você não pode gastar seu próprio dinheiro no projeto, tem que ter patrocínio. E nos quadrinhos, tudo o que você precisa é de um pedaço de papel. Por isso eu posso estar aqui em Israel com minha esposa. Eu trabalho com formato simples de quadrinhos. Minha esposa trabalha na ONG Médicos Sem Fronteiras, então ela agora está aqui em Jerusalém, e eu tenho meu próprio estúdio. Eu trabalhei com quadrinhos quando ela estava em Berlim, na Etiópia… É muito mais fácil e leve trabalhar com quadrinhos do que com animação. Para mim, os quadrinhos significam liberdade. Eu posso fazer o que quiser, sem ter que ir a um estúdio, sem planejar algum orçamento.
[Deivy Frajman] Como o seu traço pessoal evoluiu na medida em que o trabalho com animação implica a adaptação a diferentes narrativas e, portanto, diversos estilos?
[Guy Delisle] Quando comecei, fazia historinhas sem palavras, eram pequenos painéis, era como um pequeno filme de animação. Logo percebi que poderia fazer histórias curtas, imagens sem palavras, uma pequena história. Acho que percebi isso porque vim do mundo da animação, por isso eu tive esta idéia. Você pode fazer muitas coisas com quadrinhos, é uma mídia fascinante para mim. Existem muitas coisas que ainda não foram feitas. Você pode fazer histórias quase como uma animação, você pode fazer histórias como se fosse você falando, você pode fazer histórias como jornalismo, com muitas palavras, muitas explicações. Como jornalismo, você pode fazer livros de viagem com um olhar de jornalismo. Meu último projeto, Crônicas Birmanesas, eu usei um misto de todas estas possibilidades. Eu descrevo toda a sociedade birmanesa como um pequeno filme de animação. No mundo dos quadrinhos os recursos são tão variados, por que não usá-los? E se pode usá-los todos juntos. É um modo de contar uma história, um modo muito poderoso.
[Deivy Frajman] Você continua realizando animações? Está trabalhando em algum novo projeto neste momento?
[Guy Delisle] Não. Para fazer um bom filme leva muito tempo. Eu agora estou concentrado só nos quadrinhos.
[Deivy Frajman] Você está trabalhando em algum projeto novo agora?
[Guy Delisle] Sim. Estou trabalhando em alguns projetos. Eu estou preparando um trabalho para o próximo ano quando eu estarei de volta à França. É um projeto que venho querendo realizar há muito tempo. É a história de um sujeito que foi sequestrado. Desta vez quero trabalhar na história de outra pessoa, o que será uma grande mudança para mim, porque eu uso sempre minhas próprias histórias. A história é desse cara que trabalha nos Médicos Sem Fronteiras na Tchetchênia por três meses, é sequestrado e consegue escapar sozinho. Ele consegue lidar com a situação muito melhor do que nos casos em que as pessoas tem que lidar com sequestros que exigem dinheiro. A história mostra o que se passa na cabeça dele, o que ele pode fazer. Porque são horas e horas sem fazer nada no cativeiro. E eu gosto do fim da história, porque ele está diante de uma grande decisão. É quando cometem um erro, deixam a porta aberta e ele pode escapar (coisa que ele vem fantasiando durante todo o tempo). É a grande oportunidade e ele está diante de sua liberdade. E ele se pergunta: o que acontecerá? Talvez seja perigoso… E ele escapa. Para ele foi um forte sentimento. E para mim é um assunto muito interessante, porque nós estamos acostumados a uma situação de liberdade. Eu gosto do assunto. Eu conheci o sujeito que foi sequestrado, é uma história real, ele trabalhou para os Médicos sem Fronteiras. Eu gravei a história e agora estou trabalhando nela. Depois vou mandar para ele ler. É um projeto longo.
[Deivy Frajman] Você é o que poderíamos chamar de um viajante. Você já percorreu diversos países. Na França, há uma tradição de artistas viajantes que realizam Cadernos de Viagem. Aliás, ultimamente, diversos autores vêm publicando livros narrando suas viagens. Entretanto, suas últimas obras diferem dos atuais Cadernos de Viagem. Elas são estruturalmente diferentes e mais polêmicas.
[Guy Delisle] Eu sempre quis viajar desde que eu morava no Canadá e estudei nas Nações Unidas. Eu fui para a Europa, eu estudava e trabalhava ao mesmo tempo. Eu estive em Berlim, Munique. Sendo um jovem, achei ótimo, porque viajar só por viajar não era um atrativo para mim naquela época. Eu fui para Munique, conheci as pessoas e o lugar, fiquei seis meses. Eu estava viajando de carona na Europa. Depois disso eu comecei a trabalhar em animação e a animação me deu chance de viajar para o exterior porque eles estavam supervisionando o trabalho. Eu estive na China, no Vietnam. Depois disso eu pensei: já viajei o suficiente e minha esposa se juntou aos Médicos Sem Fronteiras e eu disse a ela que sim, eu posso seguir você. Agora eu viajo com ela, é bom e a família está feliz.
Quanto à polêmica, eu não a vejo em meu trabalho, Crônicas Birmanesas. Eu simplesmente descrevi as coisas que vi e vivi. Eu visitei clínicas de reabilitação de drogas no norte da Birmânia, onde se ajuda na reabilitação de viciados em drogas. É claro que na Birmânia muita coisa acontece. Eles queimam aldeias, eles matam homens, estupram mulheres… É um dos piores lugares do mundo. Eu só tentei descrever a Birmânia. Por isso eu não vejo polêmica nisso.
Este livro é um tipo de continuação. Quinze anos atrás, quando comecei, eu publiquei meu livro Shenzhen, meu livro da China. Só um editor aceitou publicar, era uma pequena editora, l’Association, eles estavam procurando um novo tipo de livro. Agora os grandes editores gostariam de ter livros como este, eles estão abrindo mais, todos eles agora têm coleções independentes. As coisas mudaram. Se eu quero publicar com eles um livro como Pyongyang, é bem mais fácil. As coisas mudaram muito na França e agora está se espalhando, na Itália, na Espanha. Isto é interessante, há muito editores. Hoje em dia para um autor é muito mais fácil mudar de estilo. Eu também faço quadrinhos para crianças. Eles não são tão populares porque não foram traduzidos.








