Guy Delisle - Parte II
[Deivy Frajman] É muito complicado, para um estrangeiro, avaliar uma situação política em um determinado país. Você se vê, muitas vezes, narrando na terceira pessoa?
[Guy Delisle] Não. Não me vejo narrando na terceira pessoa, por outro lado procuro sempre observar como uma espécie de espectador. É muito diferente você imaginar um país ou uma cultura e depois presenciá-la in loco. Por exemplo, aqui em Israel. É bem diferente ver tudo de perto do que aquilo que em geral a imagem ou as imagens que a mídia nos passa. Estar no lugar, presenciar seu cotidiano, falar com as pessoas e observar os lugares de perto, é uma história completamente diferente. Isto está muito mais próximo da realidade, do trabalho que faço. Mas… Não, não. Não me vejo narrando na terceira pessoa. Acho isso muito complicado, isso é uma tarefa para jornalistas.
[Deivy Frajman] Você teve algum problema de deslocamento aqui em Israel?
[Guy Delisle] Absolutamente não. Tenho completa liberdade de movimento como toda e qualquer pessoa. Exceto talvez na Coréia do Norte, mas não propriamente de não poder me deslocar. Mas sim porque eu era um dos raríssimos estrangeiros a estar na Coréia do Norte. Como você sabe, é um país muito fechado, e a presença de estrangeiros é bastante rara.
[Deivy Frajman] Quais são as diferenças entre os livros que poderíamos chamar, quem sabe, de ‘trilogia asiática’: Shenzhen, Pyongyang e Crônicas Birmanesas?
[Guy Delisle] ‘Trilogia asiática’? Agradeço a menção de trilogia (risos), mas não vejo estes livros como uma espécie de trilogia. Estes livros são bem diferentes, feitos em contextos bem distintos uns dos outros, até no nível de vida pessoal. Fiz estes livros…, por exemplo, Crônicas Birmanesas foi feito antes do levante dos monges, aí um amigo me telefonou dizendo que foi uma pena eu não estar lá naquele momento. Eu achei até bom porque estou muito mais interessado em, por exemplo, como um birmanês pode se adaptar à vida no Canadá, que é o caso de um amigo que conheci que está tentando se adaptar à vida no Canadá, o frio, a cultura completamente diferente da sua… Pratiquei exercícios de meditação em vários templos na Birmânia. Interesso-me mais pelo cotidiano, pelo dia-a-dia, e por isso até achei bom não estar lá na época do levante dos monges, pois isto poderia influenciar meu trabalho naquele momento.
[Deivy Frajman] Como você trabalha? Você faz uma pesquisa anterior do país ou cidade? Você percorre a cidade, ruas ou bares realizando croquis, anotações e fotos? Você recorre à tua memória para registrar uma situação?
[Guy Delisle] Eu uso muito minha memória, não faço pesquisa anterior, prefiro ver com meus próprios olhos a realidade do país ou da cidade em que me encontro. Faço muitas anotações, todo o tempo e também croquis. As fotos somente recentemente eu passei a usar. Mas é minha memória que eu mais uso. Ultimamente tenho tido muitas dificuldades de trabalhar todo o tempo em meu estúdio porque tenho crianças pequenas, e você sabe como é. Ter crianças pequenas em casa dificulta o trabalho, até porque minha esposa trabalha muito…
[Deivy Frajman] Sabemos de tuas produções na área ficcional (Aline et les autres, L’inspecteur Moroni 1, 2 e 3, etc..). Você pretende retomar obras ficcionais? Realizar obras biográficas ou autobiográficas?
[Guy Delisle] Sinceramente ainda não sei. Ainda não pensei muito sobre isso.
[Deivy Frajman] Você está prevendo morar um ano em Jerusalém? Recentemente, em teu blog, você fez uma linda lembrança sobre o arco-íris que você via através da janela de tua cozinha unindo Israel (Jerusalém) e Ramallah.
[Guy Delisle] (Risos). Isso foi uma coisa engraçada, foi simplesmente uma espécie de brincadeira que resolvi colocar em meu blog, aliás, nem gostava de blog, mas agora que estou com ele, começo a gostar e me sinto meio que na obrigação de alimentar o blog com novas coisas. Isto foi um dia, quando eu estava tomando café da manhã, e vi este arco-íris. Obviamente que isto é uma coisa naïve (ingênua). Não coloquei isto como uma coisa séria, mas o engraçado é que uma pessoa comentou em meu blog, tê-la tocado emocionalmente. Então, pensei: que bom, mas obviamente não sou naïve em relação à situação política daqui.
[Deivy Frajman] Podemos esperar um novo álbum desta sua nova experiência?
[Guy Delisle] Certamente. Ainda não sei quando, pois terei que viajar ao Canadá para receber um prêmio.
[Deivy Frajman] Parabéns. Agora, uma pergunta inevitável, afinal de contas é impossível para as pessoas no Brasil imaginarem o Oriente Médio sem que eu faça esta pergunta: como você vê este conflito Israel x Palestina?
[Guy Delisle] Para te falar a verdade, eu nunca me interessei pelo conflito que se dá aqui no Oriente Médio. Todo mundo fala disso o tempo todo. Todo mundo sabe o que se passa aqui. Mas é bem diferente você estar aqui e ver tudo isso de perto. Basicamente o conflito que se dá aqui é o conflito da humanidade. Como te disse, eu me interesso muito mais pelo cotidiano e como as pessoas vivem o seu dia-a-dia. Estar presente em Israel e ver tudo de perto é muito mais interessante do que falar sobre este conflito. Basicamente eu não tenho nenhum problema em achar que os judeus devam ter um país, mas é claro que isso não pode ser feito à custa de outro povo. Acho que os dois povos devem ter seus países. E quanto a você, o que você acha disso?
[Deivy Frajman] Eu sou o entrevistador! (Risos).
[Deivy Frajman] Você nunca esteve na América Latina, certo?
[Guy Delisle] Não. Só estive na Guatemala. Foi o lugar mais longe em que estive na América Latina. Infelizmente. Mas quero muito conhecer.
[Deivy Frajman] Muito obrigado, Guy. Esperemos que seu livro seja muito divulgado por ocasião do VI FIQ no Brasil e que você tenha muito sucesso lá.








