Supermercado Ferraille - Entrevista
Cizo e Franky, desenhistas da Requins Marteaux, aceitaram responder as nossas perguntas e falar sobre o processo de criação da versão brasileira da exposição Supermercado Ferraille que será apresentada no VI FIQ.
[VI FIQ] Les Requins Marteaux definem-se como uma estrutura de criação ou como uma editora?
[Requins Marteaux] Les Requins Marteaux nasceu, como editora, no início dos anos 90. Entretanto, percebemos rapidamente que, entre nossos leitores, havia um grande número de simpatizantes que aderiam à nossa maneira de trabalhar: nenhum salário mas nenhuma prioridade. A partir de encontros que enriqueceriam nossa história, tivemos acesso a um número ilimitado de qualificações profissionais: arte com ferro, solda elétrica, agente imobiliário, eletricista, iluminador, comediante, pintor e outras profissões. E, graças a elas, deixamos livre curso à nossa imaginação criando o Supermarché Ferraille onde a convergência entre todas as pessoas é os quadrinhos.
[VI FIQ] Senhor Ferraille é uma criação de um grupo específico dentro do Requins Marteaux?
[Requins Marteaux] Senhor Ferraille é um personagem criado por Winshluss & Cizo especialmente para o Requins Marteaux. Seu nome foi tirado de nossa revista em quadrinhos, Ferraille, que ainda poderia ser encontrada nas bancas antes da crise. Em seguida, Sr. Ferraille transformou-se, apesar dele, no emblema de nossa editora, um personagem aglutinador que iria encarnar os novos valores do Requins Marteaux. Nenhum salário com muita autoridade.
[VI FIQ] Vocês poderiam falar sobre o funcionamento do Requins Marteaux? Vocês funcionam como uma cooperativa? Todo mundo decide a política editorial, livros que devem ser publicados, participação nas diversas manifestações de quadrinhos etc…?
[Requins Marteaux] O funcionamento do Requins Marteaux é muito clássico. Legalmente, nós somos uma associação de lei 1901. Nós temos um Conselho de administração constituído por seis pessoas que representam todas as etapas da fabricação do livro: contador, autor, design, relações públicas etc. Isso nos permite ter uma visão global sobre cada livro e tomar as boas decisões. Entretanto, se um projeto é importante para nós e que, tudo indica tratar-se de um suicídio comercial, ai sim é que vamos em frente !
[VI FIQ] O mercado francês permite a grupos, com uma política editorial essencialmente voltada para a criação, encontrar um equilíbrio financeiro?
[Requins Marteaux] Por enquanto, nós não encontramos um equilíbrio financeiro. Uma editora independente deve ter uma ou várias locomotivas (entenda-se com isto, livros que vendem bem no mercado) mas isto é apenas um resultado aleatório, porque um livro em uma estrutura independente é sempre escolhido em função de seu potencial artístico e nunca em função de seu potencial comercial. Com Pinocchio de Winshluss, que ganhou o grande prêmio de Angoulême este ano, nós encontramos, talvez, nossa locomotiva…
[VI FIQ] Explique-nos, um pouco, como foi o início. Vocês são, todos, originários de Albi que é uma cidade da região Midi-Pyrénées. Hoje, vocês trabalham em Paris?
[Requins Marteaux] A empresa principal encontra-se em Albi, uma charmosa cidade du Tarn. O Tarn é um magnífico departamento que eu convido-os a visitar se vierem um dia para a França. Mas os autores ou o pessoal administrativo que trabalham em nossa editora vem dos quatro cantos do território francês. Mas, para muitos de nós, por razões absolutamente profissionais, a imigração em direção a capital foi necessária.
[VI FIQ] O projeto Supermercado Ferraille nasceu em 2002 a pedido do Festival de Angoulême. Desde então, ele fez um longo caminho… O que mudou no projeto?
[Requins Marteaux] No fundo, nada, a idéia foi sempre a de provocar o consumidor vendendo conservas vazias. Conservas com mensagens atrativas e engraçadas. Produtos, em princípio, que deveriam ser horríveis (pedaços de golfinho sem atum, foie gras para desempregados) mas tão bem empacotados (música de supermercado agradável, luz, cores atrativas) que o consumidor não se coloca nenhum problema de consciência ao adquirí-los. Há, seguramente, uma mensagem implícita mas, aparentemente, ela escapa aos seus criadores.
Na forma, os comediantes que aceitaram trabalhar neste projeto são fundamentais. No início, nossa idéia era colocar caixas muito tristes e cansadas. Os comediantes preferiram mostrar caixas felizes apesar delas, incapazes de perceberem suas condições de trabalho. Isto torna a exposição mais simpática, vende mais produtos deixando o projeto ainda mais sórdido.
[VI FIQ] Eu li em alguns sites na internet que vocês estiveram em La Paz na Bolívia. Vocês adaptaram uma parte dos produtos às demandas locais?
[Requins Marteaux] O Requins Marteaux teve a honra e a oportunidade de ser convidado em La Paz e nós guardamos uma lembrança boa e explosiva da capital boliviana. Nós não montamos o Supermercado Ferraille, mas a cada vez que trabalhamos em um novo projeto, o apelo publicitário é o seguinte : Após Albi, Angoulême, Nantes, Fresnes-en-Woevre e La Paz, o Supermercado Ferraille instala-se em (nome da cidade). É uma piscada (clin d’oeil) ao festival Viñetas con Altura, pois, apreciamos muito o trabalho e compromisso de seus organizadores.
[VI FIQ] Toda a equipe trabalha no desvio das mensagens?
[Requins Marteaux] Até agora, somente os criadores do Supermercado Ferraille (Cizo, Winshluss e Felder) estiveram implicados na elaboração das mensagens dos produtos. Mas isto não é definitivo, nós esperamos que ao longo dos anos, novos colaboradores juntem-se a nós. Como o essencial dos Supermercados Ferraille aconteceram em países francofones (França, Suiça e Bélgica), a oportunidade de criar novos produtos jamais apresentou-se. Assim, o projeto para Belo Horizonte torna-se mais excitante, pois, trata-se de inventar novos produtos para um país em que conhecemos muito pouco de sua cultura. Muitas descobertas e colaborações em perspectiva!
[VI FIQ] Vocês pensam trabalhar com alguns autores brasileiros para o desvio das mensagens dos produtos locais?
[Requins Marteaux] Parece-me indispensável. Naturalmente, começaremos a trabalhar a partir da visão que os franceses tem do Brasil, ou seja, um conjunto de idéias pré-concebidas e, obrigatóriamente, caricaturais. Conceitos estes que teremos que confrontar com o olhar brasileiro encontrando roteiristas e artistas. E ao inverso, nós esperamos deles suas visões caricaturais da França ou dos franceses, como por exemplo, que todos os franceses tem dedos do pé feios (o que após verificação não está completamente equivocado).
[VI FIQ] Quais são suas expectativas de participação no VI FIQ ?
[Requins Marteaux] Descobrir, na medida do possível, o Brasil. Encontrar futuros colaboradores e aprender novas qualificações assim como beber sucos de frutas frescas e ir a praia.
Participem da montagem da exposição no Brasil enviando idéias ou produtos com mensagens « desviadas » com ou sem o design definitivo. Esse material será encaminhado aos organizadores franceses que poderão, eventualmente, incluí-los na exposição.








